terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

CLARO!

BILL: Com licença. Esta cadeira está ocupada?
BETTY: Desculpe-me?
BILL: Está ocupada?
BETTY: Sim, está.
BILL: Oh, desculpe.
BETTY: Claro.
(Pequeno toque de campainha.)
BILL: Com licença. Esta cadeira está ocupada?
BETTY: Desculpe-me?
BILL: Está ocupada?
BETTY: Não, mas espero alguém em um minuto.
BILL: Oh. Obrigado, mesmo assim.
BETTY: Claro.
(Pequeno toque de campainha.)
BILL: Com licença. Esta cadeira está ocupada?
BETTY: Não, mas espero alguém muito em breve.
BILL: Você se importaria se eu me sentar aqui até que ele ou ela ou o que quer que seja chegue?
BETTY: (Olha de relance seu relógio.) Já passa bastante da hora...
BILL: Você nunca sabe quem você pode estar recusando.
BETTY: Desculpe. Boa tentativa, no entanto.
BILL: Claro.
(Campainha.)
BILL: Este assento está ocupado?
BETTY: Não, não está.
BILL: Você se importaria se eu me sentar aqui?
BETTY: Sim, me importaria.
BILL: Oh.
(Campainha.)
BILL: Esta cadeira está ocupada?
BETTY: Não, não está.
BILL: Você se importaria se eu me sentar aqui?
BETTY: Não, vá em frente.
BILL: Obrigado. (Ele senta. Ela continua lendo.) Todos os outros lugares parecem estar ocupados.
BETTY: Hum-hum.
BILL: Belo lugar.
BETTY: Hum-hum.
BILL: Que livro é?
BETTY: Eu só gostaria de ler em silêncio, se você não se importa.
BILL: Não.
(Campainha.)
BILL: Todos os outros lugares parecem estar ocupados.
BETTY: Hum-hum.
BILL: Belo lugar pra se ler.
BETTY: É, eu gosto.
BILL: Que livro é?
BETTY: “O Som e a Fúria”.
BILL: Oh. Hemingway.
(Campainha.)
BILL: Que livro é?
BETTY: “O Som e a Fúria”.
BILL: Oh. Faulkner.
BETTY: Você já leu?
BILL: Na verdade... não. Embora tenha lido sobre ele. Deve ser fantástico.
BETTY: É ótimo.
BILL: Ouvi dizer que sim. (Pequena pausa.) Garçom?
(Campainha.)
BILL: Que livro é?
BETTY: “O Som e a Fúria”.
BILL: Oh. Faulkner.
BETTY: Você já leu?
BILL: Eu mesmo sou um fã de Mets.
(Campainha.)
BETTY: Você já leu?
BILL: Sim, eu li na faculdade.
BETTY: Qual faculdade?
BILL: Fiz letras pelo Instituto Universal Brasileiro.
(Campainha.)
BETTY: Qual faculdade?
BILL: Eu estava mentindo. Na verdade nunca fiz faculdade. Eu só gosto de brincar.
(Campainha.)
BETTY: Qual faculdade?
BILL: USP.
BETTY: Você gosta de Faulkner?
BILL: Eu amo Faulkner. Uma vez passei um inverno inteiro lendo-o.
BETTY: Eu apenas comecei.
BILL: Fiquei tão empolgado após as dez primeiras páginas que saí e comprei tudo o mais que ele tinha escrito. Uma das maiores experiências literárias da minha vida. Quer dizer, toda aquela incrível compreensão psicológica. Páginas e páginas de prosa maravilhosa. Seu profundo alcance do mistério do tempo e da existência humana. Os cheiros da terra... O que você acha?
BETTY: Eu acho muito chato.
(Campainha.)
BILL: Que livro é?
BETTY: “O Som e a Fúria”.
BILL: Oh. Faulkner.
BETTY: Você gosta de Faulkner?
BILL: Eu amo Faulkner.
BETTY: Ele é incrível.
BILL: Uma vez passei um inverno inteiro lendo-o.
BETTY: Fiquei tão empolgada após as dez primeiras páginas que saí e comprei tudo o mais que ele tinha escrito.
BILL: Toda aquela incrível compreensão psicológica.
BETTY: E a prosa é tão maravilhosa.
BILL: E a maneira como ele alcança o mistério do tempo —
BETTY: — e da existência humana. Eu não acredito que esperei tanto para lê-lo.
BILL: Nunca se sabe. Você poderia não ter gostado dele antes.
BETTY: É verdade.
BILL: Você podia não estar preparada para ele. Essas coisas têm que acontecer no momento certo, senão não é bom.
BETTY: Isso aconteceu comigo.
BILL: Está tudo no timing. (Pequena pausa.) Meu nome é Bill, aliás.
BETTY: Sou Betty.
BILL: Oi.
BETTY: Oi.
(Pequena pausa.)
BILL: Sim, pensei que ler Faulkner seria... uma grande experiência.
BETTY: Sim.
(Pequena pausa.)
BILL: “O Som e a Fúria”
(Outra pequena pausa.)
BETTY: Bem. Pra frente e pra cima, não? (Ela volta ao seu livro.)
BILL: Garçom — ?
(Campainha.)
BILL: Você podia não estar preparada para ele. Essas coisas têm que acontecer no momento certo, senão não é bom.
BETTY: Isso aconteceu comigo.
BILL: Está tudo no timing. Meu nome é Bill, aliás.
BETTY: Sou Betty.
BILL: Oi.
BETTY: Oi.
BILL: Você vem muito aqui?
BETTY: Na verdade, só estou na cidade por dois ou três dias, depois volto pro Paquistão.
BILL: Oh. Paquistão.
(Campainha.)
BILL: Meu nome é Bill, aliás.
BETTY: Sou Betty.
BILL: Oi.
BETTY: Oi.
BILL: Você vem muito aqui?
BETTY: De vez em quando. E você?
BILL: Já não muito. Não tanto quanto eu costumava. Antes do meu colapso nervoso.
(Campainha.)
BILL: Você vem muito aqui?
BETTY: Porque você está perguntando?
BILL: Só pra saber.
BETTY: Você está realmente querendo saber, ou você só está tentando me cantar?
BILL: Eu estou realmente querendo saber.
BETTY: Porque você gostaria de saber se eu venho ou se eu deixo de vir aqui?
BILL: Só pra puxar uma conversa.
BETTY: Talvez você só esteja querendo puxar uma conversa que dure o suficiente para que você possa me convidar para ir à sua casa, tomar um pouco de vinho, ouvir um pouco de música, ou porque você acabou de alugar alguma fita ótima, só que tudo o que você realmente quer fazer é trepar — coisa que você não fará nada bem — depois do que você irá até o banheiro e mijará muito alto, então caminhará até a cozinha e pegará uma cerveja da geladeira para você sem nem ao menos me perguntar se eu gostaria de alguma coisa; e então você voltará a deitar-se ao meu lado e começara a confessar que tem uma namorada, chamada Stephanie, que está na Bélgica, fazendo medicina, e que você está envolvido com ela — terminando e voltando — no que você chamará de uma relação muito complicada, há mais ou menos sete ANOS. Nada disso me interessa, senhor!
BILL: Tudo bem.
(Campainha.)
BILL: Você vem muito aqui?
BETTY: Todos os dias, eu acho.
BILL: Eu venho aqui bastante e não me lembro de ter visto você.
BETTY: Acho que nós temos horários diferentes.
BILL: Conexões perdidas.
BETTY: É, fuso-horários trocadoss.
BILL: Incrível como você pode ser vizinho de alguém nessa cidade e nem ao menos conhecê-lo.
BETTY: Eu sei.
BILL: Vida urbana.
BETTY: É louco.
BILL: Provavelmente nós nos cruzamos na rua todos os dias. Bem em frente a este lugar, provavelmente.
BETTY: Com certeza.
BILL: (Olha em volta.) Bem, os garçons daqui com certeza parecem estar em outro fuso-horário. Eu não vejo um em lugar algum... Garçom! (Olha de volta.) Então o que você... (Ele percebe que ela voltara ao seu livro.)
BETTY: Perdão?
BILL: Nada. Desculpe.
(Campainha.)
BETTY: Acho que nós temos horários diferentes.
BILL: Conexões perdidas.
BETTY: É, fuso-horários trocados.
BILL: Incrível como você pode ser vizinho de alguém nessa cidade e nem ao menos conhecê-lo.
BETTY: Eu sei.
BILL: Vida urbana.
BETTY: É louco.
BILL: Você não estava esperando alguém quando eu entrei, estava?
BETTY: Na verdade eu estava.
BILL: Oh. Namorado?
BETTY: Mais ou menos.
BILL: O que é um mais ou menos namorado?
BETTY: Meu marido.
BILL: Ah!...
(Campainha.)
BILL: Você não estava esperando alguém quando eu entrei, estava?
BETTY: Na verdade eu estava.
BILL: Oh. Namorado?
BETTY: Mais ou menos.
BILL: O que é um mais ou menos namorado?
BETTY: Nós estamos nos encontrando aqui para terminar.
BILL: Hum-hum...
(Campainha.)
BILL: O que é um mais ou menos namorado?
BETTY: Meu caso. Aí vem ela!
(Campainha.)
BILL: Você não estava esperando alguém quando eu entrei, estava?
BETTY: Não, apenas lendo.
BILL: Tipo de ocupação triste para uma Sexta à noite, não? Lendo aqui, totalmente sozinha?
BETTY: Você acha?
BILL: Bem, com certeza. Quer dizer, o que uma mulher bonita como você faz saindo sozinha numa Sexta à noite?
BETTY: Tentando me manter longe de falas como esta.
BILL: Não, escute —
(Campainha.)
BILL: Você não estava esperando alguém quando eu entrei, estava?
BETTY: Não, apenas lendo.
BILL: Tipo de ocupação triste para uma Sexta à noite, não? Lendo aqui, totalmente sozinha?
BETTY: Creio que sim, de alguma forma.
BILL: Bem, com certeza. Quer dizer, o que uma mulher bonita como você faz saindo sozinha numa Sexta à noite? Sem ofensa, mas...
BETTY: Saio sozinha numa Sexta à noite pela primeira vez em muito tempo.
BILL: Oh.
BETTY: Você sabe, eu recentemente terminei um relacionamento.
BILL: Oh.
BETTY: De muito longa data.
BILL: Sinto muito — Bem, escute, já que ler sozinha é uma ocupação um tanto triste para uma Sexta à noite, você não gostaria de ir a algum outro lugar?
BETTY: Não...
BILL: Fazer outra coisa?
BETTY: Não, obrigada.
BILL: Eu vou ao cinema daqui a pouco, de qualquer forma.
BETTY: Eu não acho.
BILL: Grande chance de deixar Faulkner respirar. Todas aquelas longas sentenças o deixam bastante cansativo.
BETTY: Obrigada de qualquer maneira.
BILL: Tudo bem.
BETTY: Eu aprecio o convite.
BILL: Claro.
(Campainha.)
BILL: Você não estava esperando alguém quando eu entrei, estava?
BETTY: Não, apenas lendo.
BILL: Tipo de ocupação triste para uma Sexta à noite, não? Lendo aqui, totalmente sozinha?
BETTY: Eu estava tentando pensar sobre isso como existencialismo romântico. Você sabe: capuccino, boa literatura, uma noite chuvosa...
BILL: Isso só funciona em Paris. Nós poderíamos pegar o último avião para Paris, achar um café...
BETTY: Eu estou meio sem grana pra uma passagem de avião.
BILL: Maldição, eu também.
BETTY: Pra falar a verdade, eu pensava em ir ao cinema depois que terminar este capítulo. Você gostaria de ir junto? Já que não consegue localizar um garçom?
BILL: É uma bela oferta, mas... não posso.
BETTY: Hum-hum. Namorada?
BILL: Duas, na verdade. Uma delas está grávida, e a Stephanie —
(Campainha.)
BETTY: Namorada?
BILL: Não, não tenho namorada. Não se você considerar a puta castradora que eu espanquei ontem a noite.
(Campainha.)
BETTY: Namorada?
BILL: Mais ou menos. Mais ou menos...
BETTY: O que é uma mais ou menos namorada?
BILL: Minha mãe.
(Campainha.)
BILL: Na verdade, eu recentemente terminei um relacionamento.
BETTY: Oh.
BILL: De muito longa data.
BETTY: Sinto muito de ouvir isso.
BILL: É a primeira noite que saio sozinho em muito tempo. Eu me sinto um pouco no mar, pra falar a verdade.
BETTY: Então você não parou para falar porque é lunático ou porque tem uma filiação política esquisita? —
BILL: Não. Totalmente PFL.
(Campainha.)
BILL: Totalmente PSTU.
(Campainha.)
BILL: Posso falar pra você alguma coisa sobre política?
(Campainha.)
BILL: Eu me considero um cidadão do mundo.
(Campainha.)
BILL: Não tenho nenhuma filiação.
BETTY: É um alívio. Eu também não.
BILL: Eu voto de acordo com as minhas convicções.
BETTY: Rótulos não são importantes.
BILL: Exatamente, rótulos não são importantes. Me tome como exemplo. Quer dizer, que diferença faz se eu tirei nota quatro —
(Campainha.)
BILL: nota seis —
(Campainha.)
BILL: nota oito na faculdade, ou se eu vim de Goiânia —
(Campainha.)
BILL: Americana —
(Campainha.)
BILL: Curitiba?
BETTY: Com certeza.
BILL: Eu acredito que um homem é o que ele é.
(Campainha.)
BILL: Um humano é o que ele é.
(Campainha.)
BILL: Uma pessoa é o que é.
BETTY: Eu também penso assim.
BILL: E daí se eu admirar Trotsky?
(Campainha.)
BILL: E daí se uma vez fiz lipoaspiração em todo o meu corpo?
(Campainha.)
BILL: E daí se eu não tiver um pênis?
(Campainha.)
BILL: E daí se eu gastei um ano nas Forças de Paz? Eu estava trabalhando nas minhas convicções.
BETTY: Convicções são importantes.
BILL: Você não pode simplesmente rotular uma pessoa.
BETTY: Absolutamente. Eu apostaria que você é de Escorpião.
(Muitas campainhas tocam.)
BETTY: Escute, eu pensava em ir ao cinema depois que terminar este capítulo. Você gostaria de ir junto?
BILL: Isso parece divertido. O que está passando?
BETTY: Alguns dos primeiros filmes do Woody Allen.
BILL: Oh.
BETTY: Você não gosta do Woody Allen?
BILL: Com certeza. Eu gosto de Woody Allen.
BETTY: Mas você não é louco por Woody Allen.
BILL: Esses primeiros me dão um pouco nos nervos.
BETTY: Hum-hum.
(Campainha.)
(Simultaneamente.) BILL: Você sabe, eu pensava em ir...
BETTY: Eu estava pensando em...
BILL: Desculpe-me.
BETTY: Não, continue.
BILL: Eu só ia dizer que estava pensando em ir ao cinema daqui a pouco, e...
BETTY: Eu também.
BILL: O Festival de Woody Allen.
BETTY: Aqui no CINESESC.
BILL: Você gosta dos mais recentes?
BETTY: Qualquer um que não goste deveria ser expulso do planeta.
BILL: Quantas vezes você assistiu “Bananas”?
BETTY: Oito.
BILL: Doze. Então, ainda interessada?
BETTY: Você gosta de Chicabon?
BILL: Eu saí hoje às duas da manhã para comprar um. Você teve uma Lousa-Mágica quando criança?
BETTY: Sim! Você gosta de Couve-de-Bruxelas?
BILL: Acho que elas são nojentas.
BETTY: Elas são nojentas.
BILL: Você ainda acredita em casamento apesar dos correntes sentimentos contra isso?
BETTY: Sim.
BILL: E filhos?
BETTY: Três deles.
BILL: Duas meninas e um menino.
BETTY: Pedro, Paula e Priscila.
BILL: E você me amará?
BETTY: Sim.
BILL: E será carinhosa comigo pra sempre?
BETTY: Sim.
BILL: Você ainda quer ir ao cinema?
BETTY: Claro.
BILL e BETTY (Juntos.): Garçom!

3 comentários:

fernanda disse...

Adorei o texto Baby..

yuri disse...

Oi, esse texto é muito bom, é seu? Outro dia eu o vi em um banco de textos e achei ótimo, fiquei louco para fazer, vc esta montando ele, se sim me informe aonde vai estar, pois gostaria muito de ver!
Abraço e legal o blog!!!

yuri disse...

p.s. meu email yuri_simoes@hotmail.com